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Mestre Cabral Antunes, No centenário de um medalhista inesiano PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

MESTRE CABRAL ANTUNES

No centenário de um medalhista inesiano

Por José Carlos Seabra Pereira, Membro do Conselho Executivo da Fundação Inês de Castro

Perfazem-se no dia 6 de Fevereiro cem anos desde o dia em que Coimbra viu nascer um dos seus filhos mais ilustres no século XX – José Maria Cabral Antunes, notável escultor e medalhista laureado com Prémios nacionais e internacionais, cuja actividade criadora se estendeu por várias décadas e muito se intensificou no último quartel da sua vida.

Em Dezembro de 1985, o Presidente da República, General Ramalho Eanes, veio a sua casa para o agraciar com o colar honorífico de Oficial da Ordem de Santiago e Espada; o Município de Coimbra, além de outros actos de homenagem, atribuíu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade, imortalizou-o em busto colocado no Jardim de Santa Cruz e consagrou o seu nome na toponímia da urbe.

Cedo Cabral Antunes revelou a intuição inata para artes visuais e plásticas: aos quatro anos de idade já moldava bonecos e animais com miolo de pão; dois anos depois, entrando para o Jardim-Escola João de Deus, contacta com o barro e, já atraído pelas imagens de Camões e de Jesus Cristo, começa a sobressair no desenho e na modelação. Nestes mesmos domínios completa depois o respectivo Curso na Escola de Avelar Brotero, tendo como mestres Santos Sardinheiro, António Vitorino e Pereira Dias. Marcou-o, dos 13 para os 14 anos, o magistério de António Augusto Gonçalves. Não tardou que começasse a trabalhar em Casas de estatutária; ao longo de 15 anos nesse labor profissional apurou-se na destreza técnica que o iria singularizar como criador artístico. Tinha 22 anos quando ensaiou as suas aptidões na escultura monumental.

Celebrando – sob encomenda do Estado, de Autarquias, de Fundações, de Associações, etc. – efemérides históricas e figuras antigas e modernas com destaque público, nacional ou local, deixou implantados pelo País inúmeros monumentos escultóricos (estátuas, bustos, baixos-relevos, medalhões).

Entre as obras grandes de estatuária, basta nomear os monumentos “Aos Heróis do Ultramar” e “A João Paulo II” (Coimbra), os conjuntos escultóricos do Hospital Rovisco Pais (na Tocha) e do então Sanatório Infantil de Celas a Madona do Instituto Maternal de Coimbra, uma das estátuas alegóricas no Palácio da Justiça de Coimbra, a estátua do Infante D. Henrique no Portugal dos Pequenitos, e inúmeras imagens sacras, sobretudo da Virgem Maria (por exemplo, Nossa Senhora da Assunção no sítio mais alto de Portalegre), mas também de Santa Teresinha (na Igreja de Santo António das Antas, no Porto) e outras.

Entre os bustos e medalhões são de referir os de Visconde de Seabra (Anadia), Dr. Jorge de Faria (FLUC), Professores Elysio de Moura, Byssaia Barreto e Antunes Varela, António José de Almeida (Coimbra e Penacova) e Octaviano de Sá, Dr. Manuel Braga e Dr. Moura Relvas, o poeta Camilo Pessanha, os escritores Aquilino Ribeiro e João de Barros, o toureiro Manuel dos Santos, etc.

Quanto aos baixo-relevos, além dos impressivos frisos do Instituto Maternal de Coimbra e do extraordinário painel histórico-celebrativo de Santarém (comemorando o Centenário da elevação a cidade), Cabral Antunes criou vários pequenos murais alegórico-decorativos – por exemplo, em Coimbra, na Agência do Banco de Angola ou no Café Nicola.

Mas ao mesmo tempo, sobretudo na primeira fase da sua trajectória, Cabral Antunes cumpria também com excelência a sua vocação de escultor miniaturista – desde pitorescas colecções de figuras típicas regionais até às Pietàs e outras tocantes cenas da Paixão de Cristo.

As circunstâncias envolventes e a frouxa dinâmica do campo artístico em que se movia ditavam muitas vezes uma resposta de execução que, destacando-se sempre pelo rigor do traço e a coerência orgânica dos pormenores, corria conscientemente inelutáveis riscos de previsibilidade formal e de ênfase retórica (que alguns, com suspeita precipitação, taxariam de academismo). Contudo, as potencialidades criativas de Cabral Antunes eram inegáveis e encontravam actualização numa perícia assombrosa. Sublinhe-se, nos seus estilemas característicos, a coexistência do vigor físico e psicológico-moral das figuras retratadas ou alegóricas e da delicadeza subtil na representação (rosto, vestes, postura…) da beleza contemplativa e piedosa de grandes figuras femininas – maxime na extraordinária medalha consagrada a Santa Joana Princesa e em várias das dedicadas à Rainha Santa Isabel, no zénite da sua arte de inspiração mariana (tão realçada na belíssima medalha portuense  de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro).

Data de 1963 a abertura fulgurante da vertente medalhística da obra de Cabral Antunes, com as peças “Centenário de D. Carlos”, “50 Anos de Vida Literária de Aquilino Ribeiro” e “D. Carlos e D. Amélia”. Só no decénio seguinte, rondaram logo a centena as medalhas criadas pelo artista conimbricense.

À medida que se ia afirmando como o maior medalhista português do seu tempo (assim era reconhecido, sem contestação, pelas editoras e pelos críticos, pelas publicações especializadas e pela imprensa generalista), as solicitações, oriundas de instituições públicas e privadas, ou provenientes de Gabinetes de Numismática e Medalhística, tornavam-se tão numerosas e prementes que lhe escasseava o tempo – não a inventiva, nem a energia operosa! - para a execução de estátuas, baixos-relevos e outra escultura monumental. Não obstante, é dessa época a criação, em acordo com a pragmática peculiar do trabalho para o espaço público, da já referida estátua do Papa S. João Paulo II (largo dos Arcos do Jardim, em Coimbra).

A última fase da trajectória artística de Cabral Antunes revela-se de ímpar produtividade, inspirada por temáticas diversas, mas com destaque para motivos e personagens em grande consonância com os valores ético-sociais, cívicos e espirituais que sempre distinguiram a sua mundividência e o seu modo de estar na vida. Aliás, como homem independente e espírito livre – num sentido que não pode ser reduzido à imagem de um temperamento individualista, numa personalidade rica em rasgos de generosidade! -, Mestre Cabral Antunes podia envolver-se intensamente, com lúcida e eficiente vibração, no tratamento artístico de temas e figuras não procurados ao sabor de interesses e ideologias de ocasião.

Assim, embora não cesse então de, com sua consumada perícia de retratista, fixar para a posteridade a efígie de gente grada da contemporaneidade pátria e conimbricense, esse período do escultor-medalhista que legava à sua cidade o emblemático Presépio e que anualmente assinalava com novas modelações o Natal de Cristo e as festas da Rainha Santa Isabel, distingue-se sobretudo pelas grandes séries medalhísticas: “Reis de Portugal”, “Rainhas consortes”, “Vice-Reis e Governadores da Índia”, “Santos Portugueses”, “Imortais do Amor”, “Quadros célebres da história da Medicina”, “Grandes Compositores”, “Escritores” relevantes do cânone da Literatura nacional (também enaltecidos em medalhas singulares, a começar pelas de Aquilino Ribeiro, que tanto admirava Cabral Antunes, e de Camões, Eugénio de Castro, João de Barros, António Nobre, etc. ) e a grande colecção, depressa famosa, sobre o nosso Épico e os Episódios principais d’Os Lusíadas.

A doença fatídica sai-lhe ao caminho em momento de máxima pujança; e acomete-o de modo tão flagelante que o impede de completar a série “Vida de Cristo”, na qual investira as suas melhores faculdades sob o estímulo da inerente espiritualidade, tão conatural ao seu talento de artista católico.

 

Ao longo desse calvário, com desenlace a 6 de Abril de 1986, Mestre Cabral Antunes não deixa de trabalhar. Mas não pode iniciar sequer a concretização de um projecto com que sonhara anos e anos, a saber, um ciclo de interpretação simbólica da divina Commedia de Dante.