João Cutileiro (1937 – 2021)

João Cutileiro, fotografia Global Images

A Fundação Inês de Castro homenageia o conceituado escultor , João Cutileiro, membro do Conselho Geral da Fundação Inês de Castro e envia sentidas condolências à sua família.    

«Quando nos anos 80 foi decidido transformar o Palácio da Quinta das Lágrimas num Hotel, era claro para o promotor que Inês de Castro deveria ser celebrada como inspiração secular desse espaço renovado. E que só podia ser com uma obra do João Cutileiro.»

Lembro-me de me ter cruzado com ele numa exposição de obras suas em Lisboa e de lhe dizer que o iria visitar a Évora para lhe pedir que aceitasse ser o autor da escultura desejada. Vi o brilhozinho nos olhos do artista e ele de imediato me disse que sim.

Mas não era urgente. A obra de recuperação ainda estava para começar. Porém, passado uns meses, o escultor telefona-me a dizer que já estava feita, que não faria outra e que se eu não quisesse “O Sommer da Gulbenkian já me disse que a queria”. Fui a Évora com o credo na boca. Nada tínhamos falado sobre o programa ou sequer o lugar para que se destinava e julgo saber que o João não fora a Coimbra. Mas, ao chegar ao atelier, deparei com uma deslumbrante peça que em minha opinião é uma das suas obras cimeiras e que vai ficar na História da Arte Portuguesa do final do Século XX.

A escultura ´Inês de Castro` (1993) por João Cutileiro no Hotel Quinta das Lágrimas,
Foto de Porfírio Silva

Havia tempo (o Hotel foi inaugurado em 1995) e por isso o João lembrou-se de fazer, em 1994, uma exposição em Cascais “ A Apresentação da Rainha” onde, na belíssima Capela da Gandarinha, rodeada de gigantescos guerreiros, a escultura fez exclamar o Presidente Soares na inauguração que “a Inês devia ficar assim, aqui, para sempre,” tal foi a comoção estética que sentiu.

Depois de apresentada ao Mundo, Inês de Castro foi viver para sempre na Quinta onde há quase 7 séculos fora feliz e onde pode ser vista na “Galeria Gonçalo Byrne”, como a peça essencial do “Espaço Museológico Inesiano” que nela está instalado.

Nunca mais esqueci o episódio, um bom exemplo de que é o artista que faz a obra e cria o espaço, e não o contrário.

O Troféu do Prémio Literário FIC, de pedra e prata, da autoria do escultor João Cutileiro,
Fotografia de Hugo Pinheiro

Há também um ensaio em pequena escala, que também lhe adquiri, e que está hoje numa coleção particular. E todos os anos o vencedor do Prémio Literário Fundação Inês de Castro (de cujo Conselho Geral João Cutileiro foi membro desde o início) é premiado com uma miniatura também belíssima.

Paz á sua alma, João Cutileiro fica na sua obra e na memória dos seus amigos.

José Miguel Júdice | 5 de janeiro de 2021